Como fechou o exercício de 2025
Seis números resumem os quatro balanços: o município arrecadou mais do que empenhou, fechou o caixa em alta, mas seu patrimônio líquido praticamente evaporou no ano.
Por que os números não se contradizem
Um município pode arrecadar bem, fechar o ano com mais dinheiro em caixa e, ainda assim, perder patrimônio. O orçamentário e o financeiro olham para fluxo de caixa e execução do orçamento; o patrimonial olha para tudo o que entra e sai do patrimônio, incluindo itens que não passam pelo caixa — como o reconhecimento de perdas em dívida ativa e o crescimento de obrigações de longo prazo (RPPS, INSS, PASEP parcelados). É esse último efeito que derrubou o Patrimônio Líquido em 2025. Veja o detalhe na aba Indicadores e a leitura completa no Relatório de Análise.
Patrimônio Líquido e Saldo Patrimonial — 2024 x 2025 (R$)
Panorama por demonstração
| Demonstração (Anexo Lei 4.320/64) | Indicador-chave | 2025 | 2024 | Leitura |
|---|---|---|---|---|
| Balanço Orçamentário (Anexo 12) | Resultado da execução | +57.355.103,52 | — | Superávit — receita > despesa empenhada |
| Balanço Financeiro (Anexo 13) | Variação do saldo de caixa | +7.864.800,03 | +2.730.206,94 | Superávit, caixa dobrou de tamanho |
| Balanço Patrimonial (Anexo 14) | Saldo patrimonial (Af. – Pf.) | -316.750,45 | 27.095.038,29 | Virou deficitário |
| DVP (Anexo 15) | Resultado patrimonial | -27.263.647,59 | -19.681.692,10 | Déficit aprofundou 38,5% |
Balanço Orçamentário — Anexo 12
Compara o que foi previsto e o que foi de fato arrecadado e gasto durante 2025.
Receitas
| Receita | Previsão atualizada | Realizada | Saldo |
|---|---|---|---|
| Receitas Correntes | 136.044.000,00 | 114.993.897,95 | -21.050.102,05 |
| Impostos, Taxas e Contrib. de Melhoria | 28.970.000,00 | 14.305.299,87 | -14.664.700,13 |
| Transferências Correntes | 100.394.000,00 | 95.450.696,62 | -4.943.303,38 |
| Receitas de Capital | 1.200.000,00 | 1.134.205,00 | -65.795,00 |
| Total das Receitas | 137.244.000,00 | 116.128.102,95 | -21.115.897,05 |
Despesas
| Despesa | Dotação atualizada | Empenhada | Liquidada | Paga |
|---|---|---|---|---|
| Despesas Correntes | 64.547.539,50 | 46.716.836,62 | 46.716.836,62 | 46.451.185,81 |
| Pessoal e Encargos Sociais | 18.920.591,00 | 13.138.046,69 | 13.138.046,69 | 13.027.676,39 |
| Despesas de Capital | 23.824.036,60 | 12.056.162,81 | 12.056.162,81 | 12.053.762,04 |
| Reserva de Contingência | 200.000,00 | 0,00 | 0,00 | 0,00 |
| Total das Despesas | 88.571.576,10 | 58.772.999,43 | 58.772.999,43 | 58.504.947,85 |
Restos a pagar
| Tipo | Inscritos até o exercício anterior | Pagos | Cancelados | Saldo a pagar |
|---|---|---|---|---|
| Não processados | 1.380.664,83 | 0,00 | 0,00 | 1.380.664,83 |
| Processados | 10.458.192,24 | 637.887,94 | 287.539,05 | 9.532.765,25 |
| Total de restos a pagar em aberto | 10.913.430,08 | |||
Balanço Financeiro — Anexo 13
Mostra o fluxo de caixa do exercício: quanto entrou, quanto saiu, e quanto sobrou de disponibilidade financeira.
| Ingressos | 2025 | 2024 |
|---|---|---|
| Receita Orçamentária | 116.128.102,95 | 103.786.354,78 |
| Recebimentos Extraorçamentários | 3.934.391,49 | 8.726.582,18 |
| Saldo do Exercício Anterior | 9.023.316,97 | 6.293.110,03 |
| Total de Ingressos | 129.085.811,41 | 118.806.046,99 |
| Dispêndios | 2025 | 2024 |
|---|---|---|
| Despesa Orçamentária | 58.772.999,43 | 64.601.856,33 |
| Transferências Financeiras Concedidas | 49.793.257,33 | 40.935.449,15 |
| Pagamentos Extraorçamentários | 3.631.437,65 | 4.245.424,54 |
| Saldo para o Exercício Seguinte | 16.888.117,00 | 9.023.316,97 |
| Total de Dispêndios | 129.085.811,41 | 118.806.046,99 |
Deduções da receita orçamentária por fonte
| Rubrica | Fonte própria |
|---|---|
| Cota-parte do FPM | 15.225.059,99 |
| ICMS Estado | 4.619.042,56 |
| IPVA | 879.810,72 |
| IPI | 20.228,69 |
| Cota-parte do ITR | 2.387,60 |
| Total de deduções | 20.746.529,56 |
Balanço Patrimonial — Anexo 14
Retrato de tudo que o município possui (ativo) contra tudo que deve (passivo) em 31/12/2025.
| Ativo | 2025 | 2024 |
|---|---|---|
| Ativo Circulante | 23.092.090,32 | 9.611.166,97 |
| Caixa e Equivalentes | 16.888.117,00 | 9.023.316,97 |
| Créditos a Curto Prazo | 6.177.123,32 | 561.000,00 |
| Ativo Não Circulante | 121.084.881,41 | 129.793.717,29 |
| Realizável a Longo Prazo | 448.005,42 | 8.393.598,14 |
| Imobilizado | 120.636.875,99 | 121.400.119,15 |
| Total do Ativo | 144.176.971,73 | 139.404.884,26 |
| Passivo | 2025 | 2024 |
|---|---|---|
| Passivo Circulante | 14.192.927,57 | 22.262.351,97 |
| Obrigações Trabalhistas/Previd. a pagar (F) | 3.170.052,26 | 3.334.103,86 |
| Fornecedores e Contas a Pagar (F) | 6.630.764,57 | 7.068.702,92 |
| Passivo Não Circulante | 128.920.129,78 | 88.814.970,32 |
| Obrigações Trabalh./Previd. a pagar LP (RPPS+INSS+PASEP) | 126.447.670,06 | 87.949.657,54 |
| Total do Passivo | 143.113.057,35 | 111.077.322,29 |
| Patrimônio Líquido | 1.063.914,38 | 28.327.561,97 |
Ativo e Passivo Financeiro/Permanente
| 2025 | 2024 | |
|---|---|---|
| Ativo Financeiro | 16.888.117,00 | 9.023.316,97 |
| Ativo Permanente | 127.288.854,73 | 130.381.567,29 |
| Passivo Financeiro | 15.573.592,40 | 14.980.249,93 |
| Passivo Permanente | 128.920.129,78 | 97.329.596,04 |
| Saldo Patrimonial | -316.750,45 | 27.095.038,29 |
Demonstração das Variações Patrimoniais — Anexo 15
Todas as variações que aumentaram ou diminuíram o patrimônio no ano, com ou sem relação direta com o orçamento.
| Variações Patrimoniais Aumentativas (VPA) | 2025 | 2024 |
|---|---|---|
| Impostos, Taxas e Contrib. de Melhoria | 13.885.706,79 | 26.650.544,28 |
| Transferências e Delegações Recebidas | 115.567.191,98 | 104.884.149,41 |
| Outras VPA | 6.067.708,42 | 10.183.895,60 |
| Total das VPA | 141.047.330,13 | 148.616.575,35 |
| Variações Patrimoniais Diminutivas (VPD) | 2025 | 2024 |
|---|---|---|
| Pessoal e Encargos | 16.126.399,58 | 15.298.823,29 |
| Uso de Bens, Serviços e Consumo de Capital Fixo | 31.184.360,60 | 39.683.101,51 |
| Transferências e Delegações Concedidas | 68.973.963,95 | 60.191.505,28 |
| Desvalorização e Perda de Ativos | 7.715.994,68 | 46.431.772,79 |
| Outras VPD | 41.943.753,22 | 2.407.578,95 |
| Total das VPD | 168.310.977,72 | 168.298.267,45 |
| Resultado Patrimonial (VPA − VPD) | -27.263.647,59 | -19.681.692,10 |
VPA x VPD — 2025 x 2024 (R$)
Composição das VPD — 2025
Indicadores calculados
Índices derivados dos quatro balanços — fórmula, resultado de 2025 e 2024, e leitura rápida. Barras comparam os dois exercícios na mesma escala.
Endividamento Geral e Solvência Geral — 2024 x 2025
Liquidez e solvência
Estrutura de capital e endividamento
Resultado e desempenho
Execução orçamentária e restos a pagar
Relatório de Análise — Exercício 2025
Leitura conjunta dos Anexos 12, 13, 14 e 15, com os principais achados e pontos de atenção para gestores, controle interno e sociedade civil.
Caixa forte, patrimônio em queda livre
O exercício de 2025 da Prefeitura de Ouricuri combina dois diagnósticos opostos. Sob a ótica de caixa e orçamento, o ano foi positivo: a receita superou a despesa empenhada em R$ 57,36 milhões e o saldo bancário quase dobrou, fechando em R$ 16,89 milhões. Sob a ótica patrimonial, porém, o município consumiu praticamente todo o seu Patrimônio Líquido no ano: de R$ 28,33 milhões em 2024 para apenas R$ 1,06 milhão em 2025 — uma queda de 96,2% — e o Saldo Patrimonial (ativo financeiro menos passivo financeiro) tornou-se negativo em R$ 316.750,45.
A causa dessa divergência está concentrada na Demonstração das Variações Patrimoniais (DVP): o grupo "Outras Variações Patrimoniais Diminutivas" saltou de R$ 2,41 milhões para R$ 41,94 milhões — um crescimento de 1.642% — puxado por R$ 41,82 milhões em "diversas variações patrimoniais diminutivas", categoria residual que a própria estrutura do Anexo 15 não detalha por natureza específica.
Arrecadação em linha, despesa contida
A receita realizada (R$ 116,13 milhões) atingiu 84,6% da previsão atualizada (R$ 137,24 milhões), um resultado sólido para um orçamento municipal. Do lado da despesa, o coeficiente de execução foi de apenas 66,4% sobre a dotação atualizada de R$ 88,57 milhões, gerando uma "economia orçamentária" de R$ 29,80 milhões. Essa folga tanto pode refletir controle fiscal responsável quanto restrição de caixa ao longo do ano ou baixa capacidade de execução de investimentos — os R$ 14,25 milhões de dotação para Investimentos tiveram apenas R$ 2,55 milhões empenhados (17,9% de execução).
- Dependência de transferências de 82,2% da receita orçamentária — perfil típico de município de pequeno/médio porte, mas que deixa o caixa muito exposto a atrasos de repasses federais e estaduais, como o próprio Balanço Patrimonial reconhece na nota sobre fontes de recursos negativas.
- R$ 10,91 milhões em restos a pagar seguem em aberto (processados e não processados), equivalentes a 9,4% de toda a receita do ano — um compromisso que vai pressionar o caixa de 2026.
- O item "Alienação de Bens" previu R$ 300 mil e realizou R$ 0,00, e "Operações de Crédito" previstas em zero foram integralmente cumpridas — sem endividamento novo contratado no ano.
Liquidez de curto prazo recuperada
O indicador de Liquidez Corrente (Ativo Circulante ÷ Passivo Circulante) saiu de 0,43 em 2024 para 1,63 em 2025 — o município passou de uma situação em que o passivo de curto prazo era mais que o dobro do ativo circulante para uma posição confortável, com folga de 63% entre o que tem e o que deve no curto prazo. Essa melhora vem tanto do reforço do caixa (+R$ 7,86 milhões) quanto da redução do Passivo Circulante, que caiu de R$ 22,26 milhões para R$ 14,19 milhões — em boa parte porque obrigações de curto prazo migraram para o passivo não circulante via parcelamentos de longo prazo (RPPS, INSS, PASEP).
Já a Liquidez Geral, que também considera as obrigações de longo prazo, permanece estável e baixa (0,16 em ambos os anos): para cada R$ 1,00 de dívida total, o município tem apenas R$ 0,16 em ativos realizáveis para cobri-la. Isso é esperado em entes públicos com grande volume de obrigações previdenciárias de longuíssimo prazo, mas reforça que a folga de caixa observada em 2025 é pontual, não estrutural.
Endividamento no limite do ativo total
O Endividamento Geral (Passivo Total ÷ Ativo Total) subiu de 79,68% para 99,26% — ou seja, 99,3 centavos de cada real em ativos do município já correspondem a uma obrigação equivalente no passivo. O Índice de Solvência Geral (Ativo Total ÷ Passivo Total), que era 1,26 em 2024, caiu para 1,01 em 2025: o município está no limiar de ter mais passivo do que ativo.
O principal motor é o crescimento do Passivo Não Circulante, que saltou de R$ 88,81 milhões para R$ 128,92 milhões (+45,1%). Deste total, R$ 126,45 milhões são obrigações trabalhistas, previdenciárias e assistenciais de longo prazo — com destaque para R$ 86,62 milhões em contribuições ao RPPS e R$ 39,61 milhões em débito parcelado do INSS. Isso empurrou o Grau de Imobilização do Patrimônio Líquido (Ativo Permanente ÷ Patrimônio Líquido) de 4,6 vezes em 2024 para 119,6 vezes em 2025 — um salto que, isoladamente, mostra como um Patrimônio Líquido pequeno amplifica qualquer indicador que o tenha no denominador.
Do lado do ativo, chama atenção o ajuste para perdas sobre a dívida ativa tributária: com base no histórico de arrecadação dos últimos três exercícios, a própria contabilidade reconhece perda média de 78,85% no estoque de curto prazo e 96,90% no de longo prazo. Na prática, quase a totalidade dos R$ 15,45 milhões de dívida ativa bruta é considerada de recebimento improvável — um indicativo de baixa efetividade na cobrança de créditos tributários que merece atenção da administração fazendária.
Lacunas que o próprio corpo técnico já sinalizou
Imobilizado sem atualização de depreciação/reavaliação. As notas do Balanço Patrimonial informam que o setor de patrimônio não repassou à contabilidade, até o fechamento, as informações sintéticas de depreciação, amortização, exaustão e possíveis reavaliações do imobilizado — o que pode estar inflando o valor contábil de R$ 120,64 milhões em bens móveis e imóveis.
Intangível zerado por falta de dados. A Nota 12 do BP registra que o setor de patrimônio não repassou informações sobre bens intangíveis nem suas amortizações, deixando a conta zerada — o que é improvável para uma administração municipal deste porte (softwares de gestão, sistemas próprios etc.).
Estoque tratado fora do padrão. Por falta de informação tempestiva, o material de consumo (elemento 3.3.90.30) foi lançado diretamente como variação patrimonial diminutiva em vez de passar pelo controle de estoque, o que reduz a precisão do saldo de R$ 26.850,00 informado no Ativo Circulante.
Provisão atuarial mencionada em nota, mas ausente do quadro principal. A Nota 23 do BP descreve uma provisão de R$ 683.180.026,35 relativa à cobertura de déficit atuarial do RPPS, mas o quadro principal do Passivo Não Circulante mostra "Provisões a Longo Prazo" como R$ 0,00 em ambos os exercícios. Essa divergência entre texto e tabela precisa ser esclarecida — se o valor da nota estiver correto, o passivo atuarial do município é várias vezes maior que todo o seu ativo total.
Concentração não detalhada em "Outras VPD". O salto de 1.642% no grupo 3.9.9 "Diversas Variações Patrimoniais Diminutivas" (de R$ 1,43 milhão para R$ 41,82 milhões) é o maior evento contábil do exercício e o principal responsável pelo agravamento do déficit patrimonial, mas a estrutura padronizada do Anexo 15 não permite identificar, apenas com os dados publicados, sua composição por natureza.
- Esclarecer publicamente, em nota complementar, a composição dos R$ 41,82 milhões lançados em "Diversas Variações Patrimoniais Diminutivas", dado o peso que representam no resultado do exercício.
- Reconciliar a divergência entre a Nota 23 (provisão atuarial de R$ 683,18 milhões) e o valor de R$ 0,00 apresentado no quadro principal do Passivo Não Circulante, para que o Índice de Consistência Contábil do TCE-PE reflita a real exposição previdenciária do município.
- Priorizar, junto ao setor de patrimônio, a atualização dos módulos de depreciação, reavaliação e controle de bens intangíveis, hoje sinalizados como pendentes pela própria contabilidade.
- Revisar a política de cobrança da dívida ativa tributária, cujo histórico recente aponta perda de arrecadação acima de 78% no curto prazo e 96% no longo prazo.
- Acompanhar de perto o ritmo de execução de investimentos (17,9% da dotação em 2025), especialmente se parte da folga orçamentária refletir obras ou aquisições planejadas e não executadas.
Os indicadores de curto prazo — liquidez corrente, resultado orçamentário e resultado financeiro — descrevem um exercício administrado com disciplina de caixa. Os indicadores estruturais — endividamento geral próximo de 100%, solvência geral no limiar de 1,0 e a quase totalidade da dívida ativa considerada de recuperação improvável — descrevem um patrimônio sob pressão crescente, concentrada em obrigações previdenciárias de longo prazo. A prioridade para os próximos exercícios é fechar as lacunas de informação identificadas acima: sem elas, é difícil separar o que é deterioração patrimonial real do que é, simplesmente, falta de dado atualizado sobre o próprio patrimônio do município.